Tem frases que a gente lê rápido, curte, compartilha e esquece. E tem frases que ficam. “E lembre-se sempre, na tristeza ou na felicidade, que isso também passa” é do segundo tipo. Ela não promete milagre, não força um otimismo artificial, não diz que tudo vai ficar bem amanhã de manhã. Ela diz algo mais simples e, por isso mesmo, mais difícil de esquecer: nada, nem a dor nem a alegria, permanece exatamente como está. O tempo segue andando, e com ele as coisas mudam de figura.
É uma frase pequena, quase um sussurro, mas carrega uma visão de mundo inteira. E não é à toa que ela é atribuída a Chico Xavier, um dos brasileiros que mais escreveu sobre como atravessar as fases boas e ruins da vida sem se perder nelas.
Quem foi Chico Xavier
Francisco Cândido Xavier nasceu em 1910 em Pedro Leopoldo, cidade no interior de Minas Gerais, e viveu até 2002. Ficou órfão de mãe ainda criança, teve uma infância marcada por dificuldades financeiras e por um período em que foi criado por uma madrasta severa, antes de voltar a viver com o pai. Desde cedo relatava experiências que descrevia como comunicação com espíritos, e foi essa vivência que o levou, ainda jovem, a se aproximar do espiritismo — doutrina que seguiria pelo resto da vida.
Chico Xavier ficou conhecido principalmente pela psicografia: a prática, dentro da crença espírita, de escrever mensagens atribuídas a espíritos desencarnados. Ao longo de mais de sete décadas, ele psicografou centenas de livros, entre eles “Nosso Lar”, um dos mais lidos do gênero espírita no Brasil, que narra a experiência de um médico após a morte. Os direitos autorais de praticamente toda essa produção foram destinados a instituições de caridade — um gesto que reforçou, na percepção pública, a coerência entre o que ele escrevia e o que vivia.
Independentemente da posição de cada leitor diante do espiritismo como religião, é difícil encontrar no Brasil alguém que questione a simplicidade, a dedicação ao trabalho assistencial e a vida discreta que Chico Xavier levou. Ele morou a maior parte da vida em Minas Gerais, em Pedro Leopoldo e depois em Uberaba, cidades onde manteve rotina de atendimento a pessoas necessitadas, distribuição de doações e um ritmo de trabalho que impressionava até quem não compartilhava de suas crenças. Foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz e é, até hoje, uma das figuras mais citadas quando o assunto é consolo, fé e superação no imaginário popular brasileiro — não por acaso suas frases circulam tanto, décadas depois de escritas.
Por que essa frase funciona nos dois sentidos
O que torna “isso também passa” tão eficaz é a sua simetria. A maioria das frases de conforto foca só na dor: serve para quem está mal, para consolar quem perdeu algo, para acalmar quem sofre. Essa frase de Chico Xavier faz isso, sim — mas também vira do avesso e avisa: cuidado para não se apegar demais à felicidade, porque ela também é passageira.
Na tristeza, a frase funciona como um lembrete de que o sofrimento tem prazo de validade, mesmo quando não parece. Quem está no meio de um luto, de uma decepção grande, de uma fase de exaustão, tem a sensação de que aquilo é definitivo, que a dor instalou moradia fixa. Dizer “isso também passa” para alguém nesse momento não é minimizar o sofrimento — é lembrar que o tempo continua se movendo, mesmo quando a dor insiste em parar o relógio.
Já na felicidade, a mesma frase cumpre um papel quase oposto: o de humildade. É fácil, no auge de uma conquista, achar que aquele estado vai durar para sempre — o emprego novo, o relacionamento no início, a sensação de vitória depois de um objetivo alcançado. A frase lembra que também isso é fase, e que reconhecer a impermanência da alegria não é pessimismo, é maturidade. É o que permite aproveitar o momento bom com mais presença, sem a ilusão de que ele é eterno, e sem tanto medo quando ele, inevitavelmente, se transformar em outra coisa.
Essa ideia de impermanência não é exclusividade do espiritismo nem de Chico Xavier. Ela atravessa o budismo, que fala da natureza transitória de tudo o que existe; aparece no estoicismo antigo, quando Marco Aurélio escrevia sobre a passagem constante das coisas; e está presente até no folclore popular, naquele ditado antigo “isso também vai passar”, que se conta ter sido gravado num anel para lembrar tanto reis tristes quanto reis orgulhosos demais. Chico Xavier, dentro da tradição espírita, reformula essa sabedoria antiga com uma linguagem afetuosa e direta, sem grandes floreios — características, aliás, de boa parte da obra dele. Outra frase muito atribuída a ele, “não é a vida que é ruim, mas a maneira de encará-la”, segue a mesma lógica: menos sobre controlar os fatos, mais sobre a postura interior diante deles.
Há também algo de prático nessa visão, para além do consolo espiritual. Quando a gente aceita que um período ruim vai passar, fica mais fácil atravessá-lo sem tomar decisões precipitadas só para “resolver logo” o desconforto. E quando se aceita que um período bom também vai passar, sobra menos espaço para o arrependimento de não ter aproveitado direito enquanto ele durava. Em ambos os casos, a frase funciona quase como um convite à presença: não fugir da dor nem se agarrar desesperadamente à alegria, mas atravessar as duas fases prestando atenção no que elas têm a ensinar.
Quando e como usar essa frase
Essa é uma daquelas frases versáteis, que servem para situações bem diferentes entre si. Algumas ideias de uso:
- Para consolar um amigo em luto ou separação: enviada com carinho, sem pressa de “resolver” a dor da pessoa, funciona como um lembrete gentil de que aquele momento, por mais pesado que pareça, não é eterno.
- Para alguém que perdeu o emprego ou passa por instabilidade financeira: ajuda a colocar a fase difícil em perspectiva, sem prometer soluções que não estão nas mãos de quem consola.
- Como legenda depois de superar uma fase complicada: quando alguém finalmente sai de um período difícil, postar essa frase é uma forma de reconhecer o quanto aquilo doeu e, ao mesmo tempo, celebrar que era mesmo passageiro.
- Em um momento de conquista ou vitória: para lembrar a si mesmo, com humildade, que o sucesso também é uma fase — e que vale a pena aproveitá-lo com os pés no chão.
- Como mensagem de apoio geral, daquelas que se manda sem motivo específico, só para lembrar alguém querido de que os altos e baixos fazem parte do caminho.
Funciona bem tanto em uma conversa direta no WhatsApp — um texto simples, sem precisar de mais explicação — quanto como legenda de uma foto no Instagram, principalmente naquelas fotos que marcam viradas de fase: o fim de um tratamento, uma mudança de cidade, o encerramento de um ciclo difícil no trabalho, ou até um registro despretensioso de um dia bom no meio de uma temporada complicada.
Uma frase para guardar, não só para citar
Talvez o motivo de “isso também passa” continuar circulando tanto, décadas depois de ter sido escrita, seja justamente essa capacidade de acompanhar a pessoa em momentos opostos da vida. Não é uma frase que se lê uma vez e resolve tudo — é mais uma frase para se guardar de lembrete, dessas que voltam à cabeça sozinhas quando menos se espera, tanto numa noite difícil quanto num dia particularmente bom.
Chico Xavier escreveu e psicografou uma quantidade impressionante de textos ao longo da vida, mas talvez sejam as frases curtas como essa — sem grandes explicações teológicas, sem exigir que o leitor compartilhe de sua fé — que melhor resumem o espírito do que ele tentou transmitir: que a vida se move, que nada fica parado, e que existe um certo alívio em aceitar isso. Na tristeza, o alívio é o de saber que a dor não é para sempre. Na felicidade, o alívio é o de aproveitar sem medo, sabendo que aquele instante já é, por natureza, passageiro — e ainda assim vale a pena ser vivido por inteiro.